Ele senta no sofá. Alguma desculpa ou distração me é dada para que me retire do recinto e deixe somente os dois. Ele nervoso só sorri amarelo. Os cabelos brancos, a barba, o olhar severo e o amor imenso que ele sabe que sinto por quem está na sua frente faz todas as membranas das celulas dele fazerem movimentos desesperados. Ele nao consegue pensar em nada inteligente e engraçado para dizer. Abaixa a cabeça e suspira, rezando pra que eu volte logo.
Um pigarro. Ele olha pra cima assustado. Os olhos saltando da orbita.
— Você ama a minha filha?
— Amo muito, senhor.
— Ah, que bom. Porque é disso que você terá que se lembrar nos dias ruins. Quando você sentir ciumes, quando ela calar e quando ela gritar, quando ela nao aguentar mais.- Uma pausa para um olhar inquisidor e uma gota de suor se formando na testa larga dele —Filho, você ama o corpo, a fama, o status, o fato dela se doar ou o que?
— A amo como um todo, senhor.
— Hum. Você a ama agora, filho.Vai continuar amando quando ela mudar? Porque se você conhece ao menos um pouco minha menina, você sabe que ela é como um camaleao e que é adepta a grandes transformações.
—Senhor, sinceramente, eu nao sei por quanto tempo posso ama-la, nao posso prever o futuro mas enquanto meu amor por ela durar eu vou me doar por inteiro a esse amor.
—Hum, interessante, filho. Parece que ela te catequizou. Ela te transformou nao foi? Minha menina é maravilhosa. Lembro da primeira vez que vieste aqui; um menino fraco, franzino, que falava coisas bobas e deixava-se transparecer.
—Aprendi muitas coisas com ela, senhor.
—Sim,sim. Claro que aprendeu. E sei que de alguma forma ela deve ter aprendido alguma coisa. Essa menina tem mania de procurar ensinamento em tudo. O que acho patetico mas muito bonito.
—Verdade. Pra mim isso é o que a torna tão incrivel. Essa sabedoria que ela emana, sem nem perceber.
—Pensei que isso te frustrasse, filho. Me frustraria com toda certeza.
—Por que , senhor?
—Por que ela é muito maior do que eu, muito melhor. E ainda nao consegui lidar com essa ideia de feminismo, como um todo sabe? Mas não conte isso pra ela.
—Claro, senhor.
—Mas filho você vai saber lhe dar com ela distribuindo amor por onde passa?
—Não sei senhor.- ele gaguejou
—Então também não sabe se vai aguentar ver esse amor sendo retribuido, não é mesmo?
Ele balança a cabeça em afirmação
—Te adimiro por tentar, filho.
—Obrigado, senhor.
—Mas me diz uma coisa, você realmente entende tudo o que ela fala?
terça-feira, 26 de março de 2013
“Minha mãe acha que é um traço falho do meu caráter,
os amigos definem como fraqueza, a comunidade psíquica vê isso que eu
tenho como uma espécie de colecionismo afetivo, uma doença. Gosto de
chamar de Síndrome de Dom Quixote. Uma espécie de bloqueio que me impede
de qualquer ascensão pessoal e profissional. Por mais que eu trabalhe,
por mais que eu me ache bom no que faço, e por mais que as pessoas
endossem isso, há sempre uma voz em mim. E não é humildade. É um trauma,
dos grandes.”
Não
me importo que você me ache ingênua, romântica demais, boba, cafona ou
careta. Talvez eu seja mesmo tudo isso. E muito mais. Mas pelo menos eu
não tenho vergonha na cara e no peito de me abrir, de sentir.
As
pequenas notícias não saem nos grandes jornais. Quando uma pena flutua
no ar por oito segundos, ou a menina abraça o seu melhor amigo, nenhum
jornalista escreve a respeito. Só os poetas o fazem.
sábado, 23 de março de 2013
Das ligações que deveria ter feito
_ 6 vezes. Me disseram isso 6 vezes nessa semana.
_ ‘Aceita o convite dele, ele é rico’?
_ Sim. É ridículo. Ninguém mais tem vergonha de não ter vergonha na cara.
(gargalhada)
_ Repete isso. Vai.
_ Ah, pra puta que pariu você também.
_ Nunca, nem numas dez vidas, te imaginei dizendo isso.
_ Vamos nos focar no nosso problema aqui, por favor?
Do outro lado do telefone, um dique, um sorriso se acendendo.
-Tem uns bacanas querendo te comer, e você considera isso um problema. Acho que vou te recomendar um terapeuta.
_ ‘Até tu, Brutus?’
(risos)
_ O que você quer? Fala pra mim. Qual mendigo de qual viaduto é bom o suficiente pra você?
Esperei um pouco, olhei pra janela.
_ Vai começar a chover.
_ Sei.
_ Você sabe…
_ Eu sei que tô na pior, mas calma aí. Deve ter alguém com menos dinheiro que eu por aí… alguém que deva a alma, não sei.
Risos, nossos.
_ Quando você vem, filho da mãe?
_ Quando você disser pra eu ir.
_ Só dizer?
_ Aham.
_ Então vem.
_ ‘Môzão, do pau grande, tô com saudades de você, vem cá, preciso de você.’ Diz assim.
Eu ri, meu celular tocou.
_ Aham, digo. Calma aí, vou dar uma passada na Doca antes, tão me chamando.
_ Filha da puta, me convenceu. Pego o próximo ônibus.
_ Môzão?
Ele ria, eu não ouvia mas sabia.
_ Diz.
_ Não traz guarda-chuva não.
_ ‘Aceita o convite dele, ele é rico’?
_ Sim. É ridículo. Ninguém mais tem vergonha de não ter vergonha na cara.
(gargalhada)
_ Repete isso. Vai.
_ Ah, pra puta que pariu você também.
_ Nunca, nem numas dez vidas, te imaginei dizendo isso.
_ Vamos nos focar no nosso problema aqui, por favor?
Do outro lado do telefone, um dique, um sorriso se acendendo.
-Tem uns bacanas querendo te comer, e você considera isso um problema. Acho que vou te recomendar um terapeuta.
_ ‘Até tu, Brutus?’
(risos)
_ O que você quer? Fala pra mim. Qual mendigo de qual viaduto é bom o suficiente pra você?
Esperei um pouco, olhei pra janela.
_ Vai começar a chover.
_ Sei.
_ Você sabe…
_ Eu sei que tô na pior, mas calma aí. Deve ter alguém com menos dinheiro que eu por aí… alguém que deva a alma, não sei.
Risos, nossos.
_ Quando você vem, filho da mãe?
_ Quando você disser pra eu ir.
_ Só dizer?
_ Aham.
_ Então vem.
_ ‘Môzão, do pau grande, tô com saudades de você, vem cá, preciso de você.’ Diz assim.
Eu ri, meu celular tocou.
_ Aham, digo. Calma aí, vou dar uma passada na Doca antes, tão me chamando.
_ Filha da puta, me convenceu. Pego o próximo ônibus.
_ Môzão?
Ele ria, eu não ouvia mas sabia.
_ Diz.
_ Não traz guarda-chuva não.
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